Mulheres Trabalhadoras e LER / DORT:

GÊNERO E TRANSFORMAÇÃO 

DAS RELAÇÕES SAÚDE-TRABALHO

  Katia Maria Teixeira Santorum 1

 

É significativa a presença das mulheres no mercado de trabalho, bem como o aumento da sua sindicalização. Apesar disso, a opressão de gênero está fortemente presente em nossa sociedade patriarcal. Nos últimos vinte anos, acentuam-se as desigualdades salariais entre os sexos, mantém-se a segregação ocupacional, recriando-se guetos de ocupação feminina. Neste mesmo período agravam-se as discriminações no plano dos direitos sociais, generaliza-se a dupla jornada de trabalho entre mulheres dos setores populares, sendo que as mulheres negras chefes de família aparecem como o segmento social mais discriminado.

Esta realidade é menos conhecida, no que diz respeito às Lesões por Esforços Repetitivos (LER) Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho – DORT 2. Embora a maioria dos trabalhadores que buscam serviços de saúde sejam mulheres com o diagnóstico de LER/DORT, a relação entre gênero, saúde e trabalho, continua sendo desconsiderada, perpetuando a lógica capitalista, masculina e liberal.

Para identificar a importância que a transversalidade da categoria gênero imprime à problemática das LER/DORT é necessário compreender este conceito e o quê ele vem delimitar.

Há em nosso meio, uma tendência de naturalização de determinadas funções sociais, ou seja, de responsabilizar a natureza - no sentido da constituição biológica de cada sexo – pelo fato de que certos papéis são próprios dos homens e outros das mulheres. Tal percepção da realidade elimina a possibilidade de se considerar que há um padrão de comportamento e de ações, bem como de ocupação de espaços que são frutos de uma construção inteiramente social, sobre um corpo sexuado.

Sendo assim, há uma confusão entre o que é biológico e o que resulta de signos construídos socialmente. Esta confusão é apropriada pelo capital, manifestando-se nas condições de trabalho enfrentadas pelas mulheres, tanto no trabalho extra-doméstico como no doméstico e na grande dificuldade de ascensão profissional, que têm reflexos profundos na sua saúde.

A maior parte do conhecimento produzido sobre a questão da mulher, impulsionado pelo surgimento dos movimentos de libertação das mulheres, já mostrou o equívoco em atribuir à natureza aquilo que é produto do social, da história, explicando a situação de marginalização e opressão das mulheres.

Joan Scott, pioneira na discussão de gênero, pontua que a palavra gênero é utilizada para designar as relações sociais entre os sexos, rejeitando explicitamente explicações biológicas que procuram justificar diversas formas de subordinação das mulheres. Segundo a autora, o gênero torna-se uma maneira de indicar a criação inteiramente social de idéias sobre os papéis adequados aos homens e as mulheres.

O processo de socialização que transforma os seres humanos começa muito antes do nascimento. São utilizados diversos mecanismos para levar os recém-nascidos a serem pessoas com as características desejadas para a sua cultura, seu grupo, seu sexo. Este processo é incessantemente reiterado ao longo da vida, sendo que as normas de gênero reproduzem-se através das várias instituições que perpassam a vida das pessoas como a família, a educação, a religião, o trabalho.

O conjunto global das expectativas e regras sociais sobre homens e mulheres constitui o que determina o papel de gênero de cada um, delimitando sua identidade, suas possibilidades e suas limitações. O gênero feminino é constituído através da negação de possibilidades, engessando a mulher a estereótipos e papéis reprodutivos, associado à idéia de inferioridade.

As conseqüências desta desvalorização são imensas, na medida em que as mulheres passam a levar dentro de si a sensação de inferioridade e impotência, passando a viver e transmitir esses valores inferiorizados e internalizados, executando e reproduzindo exatamente o papel que a cultura lhes designa.

A influência que as explicações religiosas e os mitos exercem sobre o imaginário popular acerca da inferioridade feminina, terá o aval da ciência, que, como a psicanálise, perpetua a misoginia através do discurso racional e legítimo.

Várias são as críticas que surgem, contribuindo para denunciar o caráter naturalista, sexista e misógino da Psicanálise. A autora Cristina Bruschini considera que Freud apresentou sua teoria como uma ciência divorciada do campo histórico no qual surgiu. Naturalizou a família burguesa e suas relações de dominação, como as do homem sobre a mulher, dos pais sobre os filhos, sendo fruto de uma sociedade vitoriana burguesa, repressiva em matéria de sexualidade.

Alguns autores salientam que os terapeutas, ao ignorarem os aspectos sociais da condição feminina, fazem com que as mulheres acabem procurando em si mesmas a causa de seus desconfortos psíquicos.

Ao lançarmo-nos na difícil tarefa de buscar compreender fenômenos que são intrìnsecos à vida humana, é imprescindível que tal exercício seja feito, tendo presente que estes mesmos fenômenos originam-se a partir de relações estabelecidas em uma sociedade dividida em classes antagônicas. Sendo assim, a coletividade de onde emanam os aspectos a serem investigados, não pode ser estudada como uma unidade homogênea e harmônica.

É importante destacar que o conceito de gênero possui o caráter da transversalidade, pois, se marca uma diferença e uma relação, o faz entre tantas outras relações, isto é, é transversal às outras dimensões do social, não as excluindo.

O desenvolvimento do capitalismo, com a individualização da venda da força de trabalho, promove a separação entre a unidade doméstica e a unidade de produção (fábrica), acentuando a divisão sexual do trabalho que se torna mais rígida do que aquela que existia anteriormente. A unidade familiar que era antes de tudo uma unidade de produção, sofre uma transformação, perdendo este caráter. Essas transformações trazem como conseqüência a desvalorização e o ocultamento da importância do trabalho desenvolvido dentro de casa. Essa divisão, baseada na separação radical que a sociedade capitalista efetua entre produção de bens materiais de um lado e a reprodução dos seres humanos de outro, situa-se no âmbito da divisão sexual do trabalho.

Aos trabalhos masculinos e aos trabalhos femininos vão sendo atribuídas características distintas. Usar a força, ser capaz para trabalhos insalubres e perigosos são atributos que definem o trabalho dos homens. Em contrapartida, há uma série de características relacionadas ao trabalho das mulheres, que inclusive se constituem em aspectos favoráveis à absorção desta mão-de-obra em determinadas ocupações.

Os postos ocupados pelas mulheres são caracterizados por tarefas monótonas e repetitivas; jeito para certos trabalhos delicados; habilidade manual; leveza; meticulosidade; sedentarismo; eficiência e responsabilidade, requerendo submissão e obediência às imposições de ritmo e cargas de trabalho.

Lembrem que as mulheres anteriormente eram empregadas domésticas, professoras, secretárias, vendedoras, enfermeiras e operárias têxteis. Atualmente elas continuam exercendo essas profissões, mas são também trabalhadoras metalúrgicas, na indústria eletroeletrônica, na indústria química e farmacêutica, na indústria da alimentação, enfim, nas indústrias mais modernas, ricas e multinacionais e no comércio, que teve um crescimento muito grande pelo processo de urbanização, além dos outros serviços onde as mulheres tradicionalmente estavam presentes. O importante a destacar é que as mulheres estão concentradas na produção, como operárias, onde são consideradas não-qualificadas ou semi-qualificadas, e continuam a receber salários inferiores àqueles recebidos por seus colegas homens, apesar de ocupar a mesma função e ter igual carga de trabalho.

Embora ocupem no mercado de trabalho postos que requerem as habilidades específicas que possuem, as mulheres são consideradas trabalhadoras desqualificadas, uma vez que sua formação - o treinamento e desenvolvimento destas mesmas habilidades - ocorre fora dos circuitos de formação profissional oficiais. Entretanto, elas estão, ao contrário do que têm sido consideradas, muito qualificadas para o tipo de trabalho que assumem.

Além da separação clara entre casa e trabalho assalariado, o desenvolvimento do capitalismo estabelece também uma discriminação salarial entre homens e mulheres, baseando-se no fato de que o trabalho da mulher era visto como uma ajuda, como um complemento ao trabalho do homem.

Estudos realizados em diferentes países da América Latina indicam que o salário médio que recebem as mulheres é apreciavelmente inferior àquele dos homens. Neste contexto, o Brasil é um dos países que apresenta uma maior diferença salarial. Convém assinalar que essa situação não guarda relação com o salto educativo conseguido pela População Economicamente Ativa (PEA) feminina, revelando que a idéia de salário-complemento para as mulheres permanece mesmo que isso não seja verdadeiro.

A aceitação da divisão sexual do trabalho por parte dos operários, legitimada por uma visão naturalista da sociedade, é uma enorme trava que se opõe à superação das divisões no grupo operário e à construção da solidariedade.

Ao analisar a intrincada fusão entre capitalismo e patriarcado, vemos que o patriarcado, ao dominar a força de trabalho feminina no mercado e sua sexualidade na família, une-se ao capitalismo, mantendo as mulheres em ocupações mal-remuneradas e segregadas, dependendo economicamente dos homens, por ganharem salários mais baixos e estarem subordinadas a eles na família, onde lhes prestam serviços gratuitamente. Assim, o capitalismo utiliza o patriarcado e o reforça, fazendo com que se integre em sua engrenagem.

Existe a expectativa de que homens e mulheres se diferenciem de diversas maneiras, entretanto isso não explica porque os atributos masculinos são mais valorizados que os femininos.

Ao incluir o trabalho como categoria central na análise e compreensão do ser humano e da sociedade que ele constrói e transforma, é preciso ter presente o duplo caráter que assume na sociedade capitalista, considerando-o na ambivalência e nos pólos que possui: prazer/realização/humanização - angústia/ sofrimento/ adoecimento.

No atual panorama social brasileiro, o que se tem observado é o submetimento de homens e mulheres às condições impostas pela produção capitalista, sujeição que é proporcional à miséria, à fome e ao desemprego que assumem proporções espantosamente crescentes. O conhecimento dessa realidade obriga a reflexão acerca da saúde das pessoas envolvidas nos processos produtivos. Sendo um processo social dinâmico, tal qual o ser humano, a saúde refleteo as condições de vida e a situação da sociedade, tanto individual quanto coletivamente.

Ao coibir a autonomia tanto em relação ao corpo quanto ao pensamento, ao limitar o uso do tempo e do espaço, ao cercear as potencialidades individuais, a organização do trabalho imprime intenso sofrimento às pessoas nela inseridas. Despreza-se o corpo como um conjunto. As atividades motoras, o intelecto e a emoção já não podem atuar em harmonia, tampouco de acordo com as necessidades relativas a cada pessoa. Invariavelmente a liberdade é restringida, a capacidade de criar é tolhida e o evoluir psíquico e social é impedido no trabalho e fora dele.

O sofrimento dos trabalhadores/as, apesar de também ser determinado pelas condições de trabalho, como a exposição a agentes físicos, químicos e biológicos, não pode ser visto como limitado a eles.

A organização do trabalho, entendida como: divisão do trabalho; conteúdo da tarefa; sistema hierárquico, modalidades de comando, relações de poder e questões de responsabilidade deve ser analisada como a principal causa de sofrimento e adoecimento.

Os mecanismos de defesa utilizados contra esse sofrimento, e não o sofrimento em si mesmo, é que são explorados pela organização do trabalho, pois a erosão da vida mental individual das/os trabalhadoras/es é favorável à produção, implementando comportamentos condicionados, como a auto-aceleração do ritmo de trabalho e a perda da noção sobre os próprios limites físicos e psíquicos.

Apesar da dificuldade em relação ao registro de acidentes e doenças do trabalho, os dados obtidos junto aos locais de atendimento à saúde dos trabalhadores permitem inferir a gravidade da situação no que diz respeito a LER/DORT. Os dados de demanda de serviços públicos de saúde apontam para um maior acometimento de LER/DORT entre as mulheres. No período de outubro de 1990 a outubro de 1992, foram atendidos 124 casos de LER/DORT em um Centro de Saúde do Trabalhador de São Paulo, sendo que destes casos, 99 são mulheres. Num total de 402 pessoas lesionadas atendidas na Zona Norte de São Paulo, no período de janeiro de 1990 a maio de 1992, 343 são mulheres. De acordo com um estudo retrospectivo do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, dos 236 casos de LER/DORT atendidos entre julho de 1991 e julho de 1992, 66% são mulheres.

O relatório da pesquisa realizada pela agência ETHOS (1993) aponta que, do total da categoria dos/as trabalhadores/as em processamento de dados do RS, 53% são homens e 47% mulheres. Desses, 64% das mulheres estão concentradas na função de digitação, que se caracteriza como uma atividade monótona, repetitiva e geralmente com baixa remuneração. Enquanto que 69% dos homens concentram-se nas funções de análise e programação respectivamente, ambas funções intelectuais e não repetitivas. A pesquisa também revela que entre os/as trabalhadores/as pesquisadas, a LER/DORT atinge mais às mulheres do que aos homens, numa relação de 40% para 17%.

No caso das mulheres, além da exploração que sofrem em função de pertencerem à classe trabalhadora, também estão sujeitas a opressão que passa pela disciplina e controle do corpo, pela impossibilidade de ascensão profissional, pela imposição de chefias masculinas, assédio sexual e uma série de outras discriminações.

Para que seja possível compreender de forma ampla o significado do trabalho, é necessário reconhecer que as relações de classe não se restringem a esfera da produção e as relações de sexo, ao âmbito da reprodução. Ambas estão presentes, ao mesmo tempo, nas duas esferas. Compreender o trabalho assalariado das mulheres, bem como o trabalho doméstico, não pode ser exceção a um modelo suposto geral, mas a busca de um novo significado dentro do qual esses mesmos elementos serão elementos constitutivos.

Em pesquisa realizada com mulheres trabalhadoras portadoras de LER/DORT os depoimentos das entrevistadas, corroboraram um processo de construção da identidade, em que são socializadas a partir de um papel de gênero e que elas, ao internalizarem tal papel, assumem como suas determinadas características, tais como paciência, submissão, habilidade manual, perfeccionismo, rapidez e eficiência. Ao mesmo tempo que o papel de gênero atribuído impede que a mulher se constitua enquanto sujeito, contribui para que a aliança entre o capitalismo e o patriarcado se fortaleça, impedindo a consciência dos determinantes do processo de adoecimento, e responsabilizando as próprias trabalhadoras, que se culpam tanto pela doença, quanto pela incapacidade de dar continuidade às tarefas que seu papel exige também no âmbito doméstico.

Contribuem para perpetuar essa situação os serviços de atendimento à saúde, que contam com profissionais despreparados para atender aos casos de LER/DORT e que colaboram na mitificação dessa realidade, pois são detentores da autoridade a que estas mulheres aprenderam a acatar. Seus depoimentos revelam muito do discurso médico com o qual convivem, demonstrando desconhecimento total sobre a doença.

Entre os locais escolhidos pelas entrevistadas que fizeram parte de meu estudo, para as consultas, os primeiros e os mais comumente procurados para atendimento são postos ou centros de traumatologia, prontos-socorros e centros de ortopedia, geralmente próximos à moradia. Via de regra, são locais que não dispõem de médicos especializados em saúde do/a trabalhador/a, que foram escolhidos por serem serviços gratuitos. A postura e os procedimentos adotados pelos profissionais desses locais revela que os mesmos não estão devidamente preparados para atender os casos de LER/DORT. Foi possível constatar que em todos os casos estudados, foi feito um mau diagnóstico inicial e conseqüentemente uma má ou nenhuma orientação às pacientes.

O tratamento recebido inicialmente, em geral, caracteriza-se por uma panacéia que inclui anti-inflamatórios, anestésicos, pomadas, infiltrações, vitaminas, banhos de água quente, talas, ligas e gesso, com uma série de efeitos colaterais que mascaram os sintomas e agravam a lesão.

Há necessidade de considerar a história clínico-ocupacional para o diagnóstico da LER/DORT, entretanto constata-se que tal consideração não vem fazendo parte da conduta médica em geral. Essa conduta seria fundamental para auxiliar o profissional na construção de um diagnóstico condizente com a realidade da pessoa lesionada. Isso leva a pensar na necessidade de atualização dos profissionais da saúde e da abertura de um grande debate em torno do tipo de assistência a que maior parte da população que adoece em função do trabalho está submetida, visando uma reforma sanitária que, de um lado conserve as preocupações com o coletivo, e de outro vá às raízes dos serviços e das instituições, para torná-los significativos e significantes para os usuários.

Essa discussão é fundamental, uma vez que possui desdobramentos como tratamento, medidas preventivas, recolocação das pessoas lesionadas no mercado de trabalho, bem como garantia dos direitos sociais.

A conduta médica revela que o atual sistema de saúde que serve a população trabalhadora a torna humilhada, ao mesmo tempo que a abandona e a despreza, pois em geral recomenda a volta ao trabalho tão logo os sintomas amenizem. A rotina repete-se até que a lesão esteja em grau avançado, impondo-se a parada total definitiva.

Toda a rotina percorrida de um a outro médico, de um a outro exame, traz um campo fértil para que se desenvolvam dúvidas a respeito de estar ou não realmente doente, que sustentam uma postura de negação diante do quadro clínico. O resultado é que acabam achando tratamento adequado quando a lesão se encontra em estágios muito avançados.

Entre as repercussões subjetivas desencadeadas pela LER/DORT nas mulheres trabalhadoras, estão algumas perdas e impedimentos importantes trazendo a sensação de incapacidade e inutilidade. O sofrimento, a solidão e a vergonha surgem associados ao fato da doença ser algo invisível, sendo evidente a dificuldade das entrevistadas em reconhecer e respeitar os limites impostos pelas lesões. É marcante a insatisfação com as alterações do corpo gerando tristeza, revolta, angústia e sofrimento ante a incapacidade para trabalhar. Insegurança quanto ao futuro, dificuldade de se adaptar a uma nova profissão, prejuízo sério na vida sexual, graves perturbações no sono e deterioração das relações pessoais, depressão, isolamento e solidão, ameaçando a saúde mental. Os salários recebidos pelas mulheres são menores do que aqueles recebidos pelos homens. Entrar em auxílio-doença é reduzir ainda mais este salário, evidenciando uma situação de sofrimento particular.

Também estão presentes o sentimento de fracasso, que faz parte da significação cultural. Sentir-se incapaz para o trabalho significa sentir-se inútil, numa sociedade que se constrói através do trabalho tanto em nível de bens materiais como de seres humanos. Estar com saúde na perspectiva de classe das mulheres trabalhadoras, é estar em condições de trabalhar, o que implica ser a incapacidade física para trabalhar, a visão dominante de doença.

A presença da dor, apesar de trazer muito sofrimento, acaba sendo incorporada como algo que passa a fazer parte da vida. Não se trata de evitar a doença, mas de domesticá-la, contê-la, controlá-la, viver com ela, até que não seja mais possível fazê-lo. O importante é que não paralise o corpo trabalhador. Talvez esse seja o motivo pelo qual três anos com dor é percebido como pouco tempo e uma semana com tala é sentido como muito tempo.

O sentimento de culpa, é reforçado constantemente pelo discurso médico, sendo que, a experiência das entrevistadas com os médicos peritos é marcada por sentimentos de humilhação, revolta e indignação, diante do descrédito e desprezo que marca a relação com a perícia. Os esforços feitos cotidianamente para evitar o convívio com a sensação de fragilização e incapacidade, devem ser demonstradas ao inverso nesta situação com os médicos peritos. Devem mostrar-se incapazes, para que possam ter acesso aos direitos sociais que possuem, uma vez que o reconhecimento da doença implica em sua demonstração.

Uma das entrevistadas afirma: "A luta maior de todas as pessoas seguradas é lutar contra os peritos.” (Maria Quitéria )

O fato de serem mulheres torna ainda mais complexa a situação: "a incapacidade para escutar a queixa feminina é uma proibição cultural”. Assim, na situação de adoecimento para as mulheres, que culturalmente são tidas como histéricas e frágeis, é necessário defrontar-se com ainda mais esta dificuldade, visto que é mais um motivo que leva os peritos a legitimarem sua desconfiança a respeito da veracidade da doença.

Entretanto o modelo de atendimento médico trata dos casos individualmente, ficando a organização do trabalho subjugada a problemas individuais legitimados pelo diagnóstico clínico individual.

Partindo de um referencial psicanalítico, algumas autoras sustentam a hipótese de que a LER/DORT tenha origem psicológica, como expressão de uma neurose histérica, explicada como insatisfação de necessidades e desejos não realizados, ou, nas palavras da autora: “(...) acredito que esta maior incidência de mulheres sobre os homens se justifique pela própria estruturação da personalidade. Ou seja, a mulher já carrega consigo a fantasia da angústia da castração” Maria Celeste de Almeida (1995 p.45).

Esse tipo de abordagem desconsidera os dados epidemiológicos que informam que todas as pessoas portadoras de LER/DORT executavam atividades ocupacionais que demandavam movimentos e esforços repetitivos. Considerando-se estes aspectos cabe destacar que “todas estas explicações, que têm como matriz discursiva um modelo distorcido e perverso de psicologia (seja na teoria acadêmica ou no senso comum), ao focalizar o indivíduo destacado de seu contexto social e de trabalho e como responsável pelo seu adoecimento, constituem-se em porta-vozes de uma ideologia da culpabilização (...), que tem como conseqüência um completo fechar de olhos às condições de trabalho às quais os trabalhadores estão submetidos” (Alexandre Lima & Fábio de Oliveira, 1995 p. 147 - o grifo é nosso).

É fundamental o aprofundamento da discussão. Uma vez que a origem da LER é localizada no indivíduo, isto tem como conseqüência a atribuição da responsabilidade às pessoas adoecidas, sendo uma fonte importante de sofrimento, bem como sustenta a ausência de políticas preventivas ou de acesso aos direitos.

Um dos discursos identificados com esta abordagem, é aquele que faz parte do senso comum e que inclusive acaba sendo internalizado pelas próprias pessoas adoecidas: é quando o/a portador/a é rotulado/a de obssessivo/a, aquele que dava o melhor de si e por isto adoeceu. A ênfase nestas explicações recai sobre os traços de personalidade, tomados como características inatas e imutáveis. A importância da organização do trabalho bem como o clima institucional sobre o comportamento dos indivíduos fica esquecido.

Os depoimentos das trabalhadoras lesionadas também revelam uma tendência por parte das empresas em substituir a mão-de-obra feminina pela masculina, restringindo ainda mais o mercado de trabalho e acentuando a discriminação para com as mulheres.

As constantes tentativas de explicação da maior incidência de LER/DORT em mulheres dando ênfase aos aspectos biológicos apenas reforçam o preconceito e a misoginia, respaldando a ofensiva empresarial de restrição do já limitado espaço das mulheres no mercado de trabalho:

Há um certo acordo, nas diversas pesquisas feitas, quanto a que as mulheres são duas vezes mais predispostas para as LTC (lesões por traumas cumulativos) que os homens. Na origem deste fato: os músculos, tendões e ligamentos das mulheres possuem menor resistência que os dos homens; fatores hormonais não bem conhecidos: é comum a ocorrência de LTC em épocas de início de alterações hormonais significativas, como gravidez, início de uso ou uso prolongado de anticoncepcionais ou cirurgia de retirada dos ovários (Hudson de Araújo Couto, 1991, p.47 - o grifo é nosso).

É preciso atentar para as diferentes formas como o sexismo se manifesta no mundo do trabalho, que aparece na substituição da mão-de-obra feminina pela masculina, ou, principalmente, na manutenção daquela, em função de historicamente ser mais econômica, só aumentando sua rotatividade. Antes que a doença se manifeste como um quadro instalado, elas são substituídas por outras.

As formas de discriminação têm se tornado mais sutis, menos evidentes; não sendo discerníveis a olho nu, impondo a necessidade de instrumentos de análise mais eficazes para sua identificação. É preciso desentranhar os mecanismos discriminatórios que têm permanecido ocultos, criadores de desigualdades que têm sido atribuídas a diferenças individuais de ordem natural ou psíquica, como aspectos dados e não construídos.

Observo que os sindicatos têm papel fundamental na orientação das pessoas lesionadas tanto em relação ao tratamento quanto na busca de seus direitos, como aconteceu com duas das entrevistadas.

Fica nítido, o quanto a qualidade do atendimento e a concepção da relação médico-paciente influenciam na qualidade da adesão ao tratamento nos locais com profissionais especializados em saúde do trabalhador.

As diversas atividades relatadas durante a reconstituição da trajetória profissional das entrevistadas em minha pesquisa, bem como as palavras mais utilizadas para descrever tipo, condições e instrumentos de trabalho confirmam, todas elas, as habilidades que são exigidas das mulheres e ao mesmo tempo invisibilizadas.

Embora o relato das atividades desempenhadas ao longo da vida profissional evidenciem uso de esforços repetitivos, as trabalhadoras descartam a possibilidade de que estas tenham relação com a origem de sua lesão. Apesar de uma aparente vinculação da doença com o trabalho, há um profundo desconhecimento sobre os riscos a que estão submetidas.

A exigência do cumprimento de horas-extras bem como a demissão de quem não alcançar a produção exigida, o controle rígido do uso do banheiro, sendo permitido apenas duas vezes durante o dia, o não atendimento de solicitações de auxiliares, são alguns dos elementos que fazem parte da relação destas mulheres com o trabalho.

A polaridade prazer-sofrimento, intrínseca ao processo de trabalho, se faz sentir permanentemente e de formas variadas. O prazer aparece como uma sensação de se sentir produzindo, de ter o domínio de um saber.

As preocupações com as necessidades econômicas da família e o envolvimento com o trabalho profissional demonstram que, para as mulheres, o papel de provedor não é apenas do marido, uma vez que assumem esta responsabilidade também como sua. Entretanto a divisão do trabalho doméstico praticamente inexiste.

 

Em meu estudo observei que o significado do trabalho para as mulheres lesionadas relaciona-se com uma necessidade que extrapola o econômico, tanto que ficar sem trabalhar é sentido como ficar no desvio. Há uma distinção entre trabalho doméstico e trabalho profissional, detectada a partir das denominações utilizadas; tarefa, compromisso ou serviço, para o primeiro; enquanto para o último, simplesmente trabalho. Esta distinção ainda é observada quando é feita referência a um trabalho que é seu.

 

A representação de trabalho indica a internalização da desvalorização social acerca do trabalho doméstico, demonstrando que este trabalho não é considerado trabalho, nem mesmo por parte daquelas que o executam. 

As mulheres movimentam-se confinadas a um espaço, onde transmitem a educação aos seus filhos, comunicando-lhes conceitos sobre os quais não tiveram a possibilidade de refletir. Isso perpetua os valores que diminuem, submetem, escravizam e geram frustrações a elas. Este sentimento de menos-valia se torna sua segunda natureza, sendo vulgarizada pelo senso comum e sancionada pelas leis e pela ciência.

Ao mesmo tempo, o trabalho invisível e desvalorizado é duramente cobrado destas mulheres, mesmo quando suas condições de saúde não permitem sua realização. Mesmo que a sociedade reconheça a importância desse trabalho, não o faz abertamente; e mais, esta tarefa será exigida de uma mulher como sua segunda ou terceira jornada de trabalho, tornando-se o plano onde se acentua a super-exploração das mulheres, mesmo quando acometidas por um processo de adoecimento tão incapacitante.

 

Historicamente, a mitificação do papel de esposa e de mãe foi facilmente concretizada na medida em que casa e família passaram a significar a mesma coisa, apesar de na verdade não o serem: “enquanto a casa é uma unidade material de produção e de consumo, a família é um grupo de pessoas ligadas por laços afetivos e psicológicos (Cristina Bruschini, 1986, p.43). A contradição - vida doméstica versus vida em família - pode legitimar a naturalidade do trabalho doméstico feminino, como se este fosse um trabalho para a família e não um trabalho de casa, ocultando sua importância e seu caráter social.

 

Os processos englobados no trabalho doméstico realizado pelas mulheres ocorrem em dois níveis: em primeiro lugar, a execução de todas as tarefas que possibilitam ao trabalhador a reposição de suas forças para o trabalho diário. Embora o salário viabilize a compra de mercadorias que fazem parte das necessidades básicas, essas mercadorias não se convertem por si mesmas em sustento familiar. As casas precisam ser limpas, as comidas preparadas e a roupa lavada para que o valor do salário se converta em meios de subsistência. Em síntese, os produtos que se compram com o salário não podem ser consumidos diretamente, sendo necessário um trabalho adicional - o trabalho doméstico - para que as mercadorias sejam convertidas em nova força de trabalho. O outro nível envolvido no trabalho da dona-de-casa inclui as tarefas de formação da nova geração de trabalhadores para a sociedade, realizando-se através da gravidez, parto, cuidados, criação e socialização das crianças. Além disso, também é de sua responsabilidade atender e cuidar das pessoas idosas e dos doentes da família.

 

Mas o que acontece quando é a cuidadora habitual quem necessita cuidados? Quem irá atendê-la? Respondendo a essa importante questão destaco que quando a mulher trabalhadora adoece, há interrupção, além do trabalho profissional, do processo habitual dos serviços prestados à família, paralisando a produção doméstica e alterando profundamente a vida cotidiana de todos os membros da família que habitualmente dependem dela, evidenciando o surgimento de grandes problemas familiares, indo das relações pessoais às questões de sobrevivência do grupo familiar. Parte dos serviços deixam de ser produzidos, acumulando-se para o momento em que ela se sinta em condições de fazê-los, ao menos os considerados mais necessários ou urgentes. Outros são assumidos normalmente por filhas ou parentes do sexo feminino. Outros ainda, necessitam ser pagos.

 

Em pesquisa realizada com donas-de-casa, a autora demonstra que a ordem familiar se altera muito mais quando são elas que adoecem, do que quando os homens ficam doentes, porque as mulheres que se dedicam exclusivamente ao trabalho da casa carecem de um sistema institucional que as proteja. Com todas as limitações e dificuldades, a maior parte dos trabalhadores extra-domésticos têm algum tipo de cobertura que lhes substitui ou pelo menos lhe proporciona algum auxílio-doença enquanto dura sua incapacidade, enquanto as donas-de-casa não dispõem de nenhum sistema que permita pagar sua substituição enquanto estão doentes.

Quando se trata de LER/DORT, mesmo que tenham alguma assistência institucional (quando a lesão é reconhecida como doença profissional), continuam sendo solicitadas para o trabalho doméstico, o que dificulta - quando não impede - a recuperação da saúde. Circunscreve-se uma situação em que a impossibilidade de realização do trabalho feito cotidianamente, de forma gratuita, gera custos adicionais, determinados tanto pela necessidade de pagar esse trabalho, quanto de adquirir medicamentos e todos os gastos demandados pelo tratamento, como os constantes deslocamentos de ônibus. É somente diante da impossibilidade de realizar as tarefas de casa, que se torna visível o seu valor oculto. De qualquer forma, nessas circunstâncias, o reconhecimento de sua importância está contaminado por sentimento de culpa, de cobranças internas (às próprias mulheres) e externas.

Paradoxalmente este trabalho, que anteriormente era realizado de forma gratuita, quando realizado por outras pessoas é sentido pelas mulheres lesionadas como exploração. Vários sonhos e projetos vão sendo descartados, como reformar a casa, ter mais um filho ou cuidar do jardim. A possibilidade de criatividade e contato com a natureza que amenizam a rotina e o peso do trabalho doméstico que é possibilitado através do cuidado com o jardim também se perde. No lugar do sonho coloca-se basalto.

Estar presente nos objetos, ter uma casa com o seu jeito são formas de se apropriar do trabalho dando-lhe o toque pessoal que confere valor a quem o realiza. A mulher adoecida por LER/DORT passa a pertencer a um espaço que não pode ter seu toque pessoal. À cobrança interna, de não conseguir atuar de acordo com as internalizações sobre o seu papel, soma-se a cobrança social, expressa por membros da família, incrementando a depressão, a sensação de inutilidade e a vergonha diante de uma lesão invisível .

Além de não poder desempenhar o trabalho profissional, há também a dor moral, que emana da impossibilidade de corresponder às expectativas (não questionadas) do papel de gênero - é ter que fazer e não poder. A mulher quando é acometida por adoecimento profissional tão incapacitante tem um outro drama ao retornar a casa: ela também não consegue mais desempenhar o papel socialmente reconhecido como legítimo do gênero feminino. O sofrimento e a sensação de inadequação causados pela paralisação no âmbito doméstico, parecem ser tão intensos quanto aqueles provocados pela interrupção do trabalho profissional. Além da angústia por ser obrigada a parar o trabalho profissional, estar em casa e não conseguir realizar aquilo que é assimilado como obrigação de mulher é fonte de sofrimento e ansiedade.

 

A representação sobre ser mulher e ser homem quando se está com LER/DORT apresenta-se de forma contraditória no discurso das mulheres de meu estudo. A situação da mulher é percebida pelas entrevistadas, em desvantagem em relação ao homem.

“O homem não, se ele tá com dor ele chega, senta ali, vai vê TV quieto, põe o braço de um jeito, toma um remédio e fica e alivia. Agora, tu não, tu com dor, tomando remédio ou não, tu é obrigada a fazê dentro de casa as coisas, tanto que não tem quem faça. Eu quando no começo da minha doença as minhas crianças eram bem menores, então eu não ia botá as criança a trabalhá, né? Então eu era obrigada a fazê. Tinha dias que eu fazia chorando as coisas, chegava em casa tinha que fazê a janta” (Maria Genoveva).

“Os homens tem mais regalias e vantagens que a mulher né? Não precisam passar, lavar, cozinhar...” (Maria Lia).

Há uma incorporação dos papéis de gênero e uma conformidade em relação aos mesmos, recorrendo a justificativas que expliquem as diferenças. O máximo esperado do homem é que coopere ou ajude na realização de um trabalho que pertence à mulher. Esta percepção reafirma a representação que possuem acerca dos papéis a serem desempenhados por homens e mulheres, que é reproduzida na criação dos filhos e filhas.

 

Os elementos da pesquisa sublinham a existência de uma organização familiar do tipo tradicional, cujo peso, inteiramente sob a responsabilidade das trabalhadoras, não as coloca em condições favoráveis para se liberarem de uma situação de estafa e de cansaço, o que seria a condição básica para a sua recuperação. A impossibilidade da recuperação imposta pelo trabalho da casa implica em stress somado ao da jornada de trabalho realizada fora, que deve ser levada em conta na hora de analisar a patologia feminina (transtornos psicossomáticos) como fator específico.

 

A dupla jornada de trabalho que muitas mulheres suportam, somada ao tipo de trabalho desempenhado, no âmbito profissional e às relações engendradas nele, são fatores determinantes do maior índice de enfermidades psicossomáticas das quais padecem a mulher em relação ao homem. Há elevada frequência entre as mulheres de transtornos digestivos, neuropsíquicos, dores de cabeça, insônia e esgotamento nervoso, que, longe de ser reconhecidos e tratados como enfermidades derivadas de condicionamentos ambientais e sociais determinados, têm sido qualificadas de frivolidades e histeria feminina.

 

A divisão de trabalho entre os sexos limita consideravelmente as possibilidades de lazer para as donas de casa em relação aos seus companheiros e outros membros da família, invadindo todos os outros espaços temporais, sobretudo o do lazer e do descanso, pois algumas tarefas são centralizadas, inadiáveis, e outras indelegáveis.

 

Essa situação determina que a falta de horas de folga ou momentos de lazer dedicados a si, seja predominante na vida destas trabalhadoras. Quando evocados, os momentos incluem uma série de responsabilidades, além de ser para proporcionar lazer às crianças, cuidar da horta, ou ainda para desatrasar algumas tarefas, botar a casa em ordem.

 

A única folga de Maria Isaura é no domingo, entretanto em função da doença ela afirma que:

“Ultimamente eu atraso... o que tá atrasado da semana eu procuro desatrasá no domingo. Se tivé roupa eu lavo roupa, varro a casa, passo uma cêra, as vez coitadinha, tá a duas semana sem cêra, aí eu pego tiro o pó limpo bem, limpo um vidro. O que tá atrasado, durante a semana procuro fazê no domingo (...) chega domingo a mesma tarefa, tu vai tê compromisso com o café da manhã, almoço, sempre o mesmo compromisso...”.

Para essas mulheres, estar fora do lugar tradicional de cuidar de outros é alarmante, uma vez que as lança para si mesmas. São atiradas para a insegurança de se apresentarem como outras mulheres que existem adormecidas e que podem ser acordadas a qualquer momento para a vida.

A idéia de que a mulher vem mais para servir imbrica-se com uma série de opções que são tomadas ao longo da vida, como não poder admitir abertamente que sente dor, evitando falar nela. Os sentimentos são controlados ao extremo com a preocupação de garantir um ambiente tranqüilo, sendo a responsabilidade pelo equilíbrio emocional da família um dos atributos destinados às mulheres. Ilustram este fato no calar sobre a falta de prazer sexual em função da dor, considerando o falar vergonhoso.

As LER/DORT atingem cada vez mais as diversas categorias profissionais, nas quais as mulheres são maioria. Embora os trabalhos executados pelas entrevistadas sejam considerados mais leves e expostos a menores riscos, ao examinar mais profundamente esta problemática, verifico o equívoco de tal consideração, pois elas estão inseridas no mercado de trabalho em ocupações que requerem habilidades historicamente tidas como femininas, que determinam a deterioração de sua saúde. Na reconstituição da trajetória profissional, ficam evidentes os grandes riscos a que as mulheres estão expostas, produzindo efeitos a longo prazo, uma vez que são acumulativos e não visíveis de imediato.

As ocupações ditas femininas têm em comum a característica de exigirem esforços repetitivos. Esses fatos, somados à presença da dupla jornada de trabalho, indicam uma importante relação entre a maior incidência da LER/DORT em mulheres e a sua inserção na produção e reprodução da vida social. A rígida divisão de papéis é determinada pelo gênero e apropriada pelo capitalismo, que super-explora as mulheres, retirando-lhes sua saúde.

Frente à pessoa doente, para compreender o que nela adoeceu, é necessário olhar através de lentes que traduzam o fato de que este processo está inscrito na história de seu cotidiano e não pode ser restringido a um órgão de seu corpo. É preciso ter presente que a pessoa adoecida não se resume a sua anatomia, mas é um sujeito que perdeu seu norte e que necessita ser reintegrado em sua história, reestruturando-a. É somente através da consideração de que essa história é feita de gênero, que a reintegração poderá oferecer verdadeiramente novas perspectivas às pessoas que padecem de processos de adoecimento decorrentes do trabalho e que afetam de forma tão importante, toda as dimensões da vida, inclusive a capacidade produtiva.

Para conviver com a nova situação criada em função das alterações físicas e psicológicas, é importante instaurar novos padrões de vida. Isso não é algo que dependa exclusivamente de cada pessoa lesionada, individualmente, senão que deve envolver o meio e as pessoas de suas relações. Instaurar um novo padrão de vida em relação aos papéis de gênero requer uma discussão que envolve estruturalmente a sociedade. A ciência, comprometida com a saúde em seu sentido amplo, deve incluir tal dimensão.

As reações por parte das empresas têm sido de desrespeito às trabalhadoras. Este desrespeito inclui aspectos mais amplos como a forma de organizar o trabalho, as condições de trabalho, o desrespeito às normas de prevenção, até o não reconhecimento da lesão, negando às trabalhadoras o acesso aos direitos trabalhistas. Evitam as notícias sobre a doença tratando cada caso sigilosa e isoladamente, de forma a garantir o controle absoluto sobre a situação para assim manipulá-la de acordo com seus interesses. As demissões arbitrárias em função deste processo de adoecimento, intimidam as trabalhadoras, reforçando a negação de sua real situação, que em função disso, não buscam auxílio.

A participação das/os trabalhadoras/es nas decisões e transformações que dizem respeito à organização do trabalho é um aspecto essencial quando se fala em prevenção em nível dos problemas de saúde ocupacional. Faz-se pertinente identificar o conhecimento que as/os mesmos/as têm sobre o trabalho que executam, sobre os riscos e as conseqüências desse trabalho para a sua saúde. É imprescindível que esse conhecimento seja resgatado. Há necessidade de construção de uma nova abordagem sobre a questão saúde/trabalho: ela deverá passar pela interdisciplinaridade, contendo contribuições da educação, biologia, antropologia, psicologia, sociologia, história, medicina, direito, economia, enfermagem, fisioterapia, entre outras, incluindo a dimensão de gênero.

O encontro entre o profissional e o usuário do sistema de saúde pode e deve se tornar um espaço educativo, se os seus dispositivos forem trabalhados coletivamente. Isso implica em repensar a própria instituição na perspectiva de torná-la um lugar de mudança e não mais de normatização. Compete aos profissionais de saúde colocar à disposição das/os trabalhadoras/es de forma acessível, todas as informações relativas à gênese, evolução e prevenção das alterações de saúde de que são portadoras/es, seus direitos previdenciários e trabalhistas.

A falta de formação profissional frente ao avanço tecnológico está alienando muitas mulheres deste campo. Conquistas nessa área podem contribuir para a transformação da atual forma de inserção das mulheres no mercado de trabalho, que se reflete em sua saúde.

A abordagem grupal com portadores/as de LER/DORT tem mostrado que este espaço propicia a construção coletiva de um conhecimento comum sobre a doença, facilitando o processo de articulação da vida das pessoas com a sua nova realidade. As pessoas lesionadas tomam o grupo como uma referência que confere segurança para enfrentar determinadas situações, como o ambiente desconfirmador e o discurso da culpabilização. É imenso o potencial deste tipo de abordagem. Tal potencial pode ser ainda mais ampliado se tivermos profissionais preparados para problematizar, junto às pessoas lesionadas, as questões de gênero, propiciando a reflexão sobre o significado de ser mulher ou homem, para quem é portador/a de LER/DORT.

Dessa forma se estaria criando um ambiente propício para o desenvolvimento da consciência de que boa parte do projeto de vida que se desestruturou e que necessita ser refeito não é individual. É fruto de uma construção que permeia todas as relações sociais, todas as instituições e que continuará a existir, continuará a cobrar-lhes continuidade, por mais que se esforcem em construir novos referenciais e novos projetos de vida, isoladamente. Se a dimensão de gênero não for aprofundada nestes espaços privilegiados de construção coletiva, teremos uma lacuna que, em função das internalizações das pessoas sobre seu papel de gênero, e do conseqüente não questionamento do mesmo, serão impelidas a reproduzi-las inconscientemente no esforço de resignificação de suas vidas.

Para resignificar o destino, é condição imprescindível a consciência de todo o processo de construção histórica e social dos papéis de gênero e de seus mecanismos de manutenção, de tal modo que seja possível identificá-los no cotidiano. Mulheres e homens precisam apropriar-se da lógica de sua inserção no mundo, que não surge de uma escolha, mas de uma expectativa social preexistente à constituição de seus projetos pessoais. Tal apropriação permitirá que se desfaçam de condicionamentos inerentes ao papel de gênero, que têm servido historicamente para criar uma clivagem no conjunto da classe trabalhadora, que além de enfraquecê-la enquanto potência de transformação, a impele para o sofrimento e adoecimento. Ao considerar a dimensão de gênero nas relações entre saúde e trabalho, buscando a transformação estrutural destas relações, abre-se um caminho para a construção de um mundo fraterno, igualitário, ancorado em relações sociais que primem pela fraternidade, humanidade, solidariedade e vínculos saudáveis entre os sujeitos e o seu trabalho.

 

NOTAS


1 Psicóloga, Mestre em Psicologia Social e da Personalidade, Professora do Departamento de Psicologia da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC) katia@dpsico.unisc.br

 

2 O Ministério da Previdência Social, ao atualizar a Norma Técnica para Avaliação da Incapacidade Laborativa em Doenças Ocupacionais, em 1997, passa a adotar a terminologia Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho, incluindo as Lesões por Esforços Repetitivos neste novo conceito.

 

 

 

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